Website do ator, psicólogo e manager e Rafael Santin. Pai da linda Maria Eduarda. Estuda artes dramáticas no Conservatório Carlos Gomes. Atualmente está na produção da "Revolução na América do Sul" de Boal e direção de Abílio Guedes. Tem tatuado em árabe, sua filosofia de vida: Em Nome de Deus, O Clemente, O Misericordioso

Os Prazeres da Vida oFale Conosco  

Domingo, Fevereiro 29, 2004
Existem centenas de prêmios no mundo do cinema, mas nenhum é como o Oscar. Nada tem a mesma popularidade, glamour ou é capaz de criar a mesma polêmica e interesse. Hoje (29 de fevereiro), por volta das 22:00 (horário de Brasilia), o SBT e a TNT transmitem a Festa aqui para o Brasil.

Eu não ia escrever nada antes da cerimônia, mas ai comecei a lembrar de alguns momentos marcantes desta festa e não resisti. Momentos esses que marcaram a minha vida como amante da 7ª arte, como...

...quando em em 1987 a Cher agradeceu ao seu maquiador e cabelereiro, mas esqueceu de falar do diretor e roteirista do filme que lhe deu o Oscar de Atriz, "Feitiço da Lua". No dia seguinte, ela teve que pagar um anuncio no Variety pedindo desculpas a eles.

...quando descobri que Marilyn Monroe nunca foi indicada ao Oscar e só compareceu uma vez à Festa, como apresentadora na categoria de Melhor Som, em 1950, no começo da carreira. E que "Assim Estava Escrito" foi a fita que ganhou o maior numero de Oscars sem ter sido indicado à Melhor Filme, algo semelhante pode acontecer com "Cold Moutain" este ano.

...quando me decepcionei com as derrotas de "A Cor Púrpura" e "O Resgate do Soldado Ryan" de Steven Spielberg.

...quando em 1987, todos os indicados na categoria de Melhor Diretor não eram americanos. Foram eles: o italiano Bernardo Bertolucci por "O Último Imperador", o sueco Lasse Hallström por "Minha Vida de Cachorro", o inglês Adrian Lyne por "Atração Fatal", o irlandês John Boorman por "Esperança e Glória" e o canadense Norman Jewison por "Feitiço da Lua".

...Quando em 2000 os organizadores da festa reuniram no palco diversos vencedores do Oscar de atores, entre eles, Shirley Temple, Gregory Peck, Paul Newman, Jack Lemmon, Sidney Poitier, Shirley MacLaine, Katharine Hepburn e Julie Andrews.

Todos os anos esses acontecimentos e surpresas me emocionam e por isso resolvi publicar meus devaneios a respeito da cerimônia de 2004. A seguir estão minhas opiniões sobre os que merecem (se o mundo fosse justo) e os que devem realmente vencer na disputa (em um mundo provavel):

Melhor Filme
Se o mundo fosse justo: O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei
Em um mundo provável: O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei


Comentário: A trilogia de Peter Jackson parece finalmente ter gerado um filme amadurecido e agradável aos olhos da Academia. Foram dezenas de prêmios, clima de épico, bilheterias majestosas. Nenhum outro filme parece ter cara de Oscar na categoria principal. A saga de Jackson consegue uma coisa difícil no cinemão: perfeição técnica e uma direção que valoriza interpretações e roteiro e não se rende a necessidades financeiras. "Sobre Meninos e Lobos", de Clint Eastwood perdeu força com o tempo, além de ter uma temática não tão assimilável. "Mestre dos Mares", apesar de muito bom, não é para todos os paladares, "Encontros e Desencontros" é maravilhoso, mas tem um público muito restrito e "Seabiscuit" é a bobagem do ano.

Melhor Diretor
Se o mundo fosse justo: Peter Jackson - O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei
Em um mundo provável: Peter Jackson - O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei


Comentário: Peter Jackson tem todas as vantagens, mas elas não são tantas assim. Clint Eastwood é sinônimo de diretor sério e, mesmo com um prêmio na estante, pode surpreender. Empatada com ele está Sofia Coppola, mas mais provável mesmo é que Sofia garanta o seu com o melhor roteiro original. Peter Weir enfraquece sua candidatura frente a três oponentes mais visíveis. Fernando Meirelles é coadjuvante de luxo.

Melhor Ator
Se o mundo fosse justo: Bill Murray, Encontros e Desencontros
Em um mundo provável: Sean Penn, Sobre Meninos e Lobos


Comentário: Penn é um grande ator, sempre foi, e só nos últimos anos começa a ser reconhecido pela crítica, o que sempre pesa no Oscar. Seu filme é "o grande filme sério do ano" e isso conta muito. Mas que ele está muito melhor em "21 Gramas", isso ele está. Bill Murray tem o melhor desempenho entre os indicados, mas sofre um pouco pelo caráter independente. Johnny Depp parecia brincadeira da Academia, homenagem ao conjunto da obra, mas a vitória no SCREEN ACTORS GUILD deu um novo fôlego a sua candidatura. Jude Law, não teve capacidade de empolgar o suficiente. Ben Kingsley é só um grande nome para completar a lista.

Melhor Atriz
Se o mundo fosse justo: Scarlett Johansson, Encontros e Desencontros
(ops, off list)
Em um mundo provável: Charlize Theron, Monster

Comentário: Charlize Theron tem tudo a seu favor. "Monster" é um "filme de atriz" (assim como eram "Acusados", que elegeu Jodie Foster, e "A Última Ceia", que premiou Halle Berry). Diane Keaton, não tem tantas chances. Naomi Watts é uma ameaça séria, mas "21 Gramas" parece ser muito alternativo para a Academia. Não vi nada da Samantha Morton, prefiro não comentar. Keisha Castle-Hugles, é a "atriz mais jovem indicada ao Oscar", não deve passar disso. Na verdade, faltou Johansson.

Melhor Ator Coadjuvante
Se o mundo fosse justo: Benicio Del Toro, 21 Gramas
Em um mundo provável: Tim Robbins, Sobre Meninos e Lobos


Comentário: A interpretação cheia de caras e bocas de Tim Robbins deve ganhar o Oscar, assim como fez com o Globo de Ouro e o SAG. Ken Watanabe, interpretação muito boa num filme ruim. Porém essa categoria de "coadjuvantes" sempre surpreende, sendo assim Benicio Del Toro pode sair com seu segundo prêmio na carreira. Ele está ótimo, mas o filme não tem força para a Academia. Não sei nada de Alec Baldwin e Djimon Hounsou.

Melhor Atriz Coadjuvante
Se o mundo fosse justo: Renée Zellweger, Cold Mountain
Em um mundo provável: Renée Zellweger, Cold Mountain


Comentário: É admirável e memorável a interpretação de Renée Zellweger. Quando surge na tela, Renée anuncia uma performance que salva "Cold Mountain", uma interpretação maravilhosa. Merece dois prêmios. Shoreh Aghdashloo está cotadíssima nos sites especializados. Como esta categoria é "aquela", pode até ser. Patricia Clarkson, Marcia Gay Harden e Holly Hunter não tive o prazer de assistir.

Melhor Filme Estrangeiro
Vale a sinceridade: Não vi nenhum
Então vou apostar: As Invasões Bárbaras, do Canadá


Comentário: Bem, esta categoria está ridícula. Cada país indica um filme e um comitê define os finalistas. Ou seja, injustiça não falta. Para votar, tem que ver todos os filmes, o que muitas vezes derrubou alguns favoritos.

Melhor Roteiro Original
Se o mundo fosse justo: Sofia Coppola, Encontros e Desencontros
Em um mundo provável: Sofia Coppola, Encontros e Desencontros


Comentário: Sofia Coppola, sem dúvida. Um grande roteiro, cuidadoso, inteligente e bem executado. É o voto das mulheres, dos alternativos, dos cabeça. E ainda garante um Oscar para o filme.

Melhor Roteiro Adaptado
Se o mundo fosse justo: Brian Helgeland, Sobre Meninos e Lobos
Em um mundo provável: Brian Helgeland, Sobre Meninos e Lobos


Comentário: "O Anti-Herói Americano" ganhou o Guild, mas parece muito alternativo para a Academia. O filme de Clint Eastwood é um grande texto. "O Retorno do Rei" deve ganhar vários, mas não esse. "Cidade de Deus" embora muito bem desenvolvido e até mesmo merecedor, não tem muita força.

Melhor Fotografia
Se o mundo fosse justo: César Charlone, Cidade dos Deus
Em um mundo provável: Eduardo Serra, Moça com o Brinco de Pérola
(brasileiro)

Comentário: "Moça com o Brinco de Pérola" parece ser um filme de fotografia, mas eu não vi. "Seabiscuit" (não gostei nada nele) ganhou o Guild. "Cidade de Deus", pela inventividade é o melhor e mais original. Merecedor. "Cold Mountain" e "Mestre dos Mares" são de grandes estúdios e isso pode pesar na hora.

Melhor Edição
Se o mundo fosse justo: Daniel Rezende, Cidade de Deus
Em um mundo provável: James Sellkirk, O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei


Comentário: Onde "Cidade de Deus" tem mais chances é aqui. Resta saber se a edição mais rápida e criativa vai superar "O Retorno do Rei", montagem paralela mais clássica, que parece ser o único oponente real. A favor, o sentimento da Academia de que o longa chamou tanta atenção que merece ganhar ao menos um prêmio.

Melhor Direção de Arte
Se o mundo fosse justo: Grant Major e Alan Lee, O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei
Em um mundo provável: William Sandell, Mestre dos Mares: O Lado Distante do Mundo


Comentário: "O Retorno do Rei" é grande, muito grande. Acho que, fora "Mestre dos Mares", os outros três são ameaças distantes, na ordem.

Melhor Figurinos
Se o mundo fosse justo: Ngila Dickson, O Último Samurai
Em um mundo provável: Ngila Dickson, O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei


Comentário: "O Retorno do Rei" é sempre uma opção, mas acho que aqui a grandiosidade vai dar lugar à delicadeza. Este pode ser o Oscar de "O Último Samurai". Detalhe, Ngila Dickson participou do designer dos dois filmes.

Melhor Trilha Sonora
Se o mundo fosse justo: Howard Shore, O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei
Em um mundo provável: Howard Shore, O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei


Comentário: Acho que engrossa o número de prêmios de "O Retorno do Rei". Howard Shore fez, mais uma vez, uma trilha edificante com momentos belíssimos. Merece a vitória e pode emplacar um segundo Oscar pela trilogia. "Cold Mountain" tem boas chances, mas quem eu nunca descarto é Danny Elfman, desta vez com "Peixe Grande".

Melhor Canção
Se o mundo fosse justo:
"Into the West", Howard Shore e Annie Lennox, O Retorno do Rei
Em um mundo provável:
"You Will Be My Ain True Love", de Sting, Cold Mountain

Comentário: Aqui o embate é a grandiosidade de "O Retorno do Rei" e a tradição de "Cold Mountain" que concorre com duas, mas prefiro a música do Sting antes da do Elvis Colstello. Prefiro Into the West ganha em ano de épico.

Melhor Maquiagem
Se o mundo fosse justo: Mary Burton, X-Men 2
(ops, esse não está concorrendo)
Em um mundo provável: Richard Taylor e Peter King, O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei

Comentário: As apostas estão indo mais pro lado de "Piratas do Caribe" e pode ser o Oscar do filme, mas "O Retorno do Rei" é o filme do ano, então eu vou com ele.

Melhor Sonoplastia
Se o mundo fosse justo: Michael Hedges, O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei
Em um mundo provável: Michael Hedges, O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei


Comentário: "O Retorno do Rei", é um show de som THX, mas "Mestre dos Mares" também tem fortes chances.

Melhores Efeitos Visuais
Se o mundo fosse justo: Jim Rygiel e Alex Funke, O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei
Em um mundo provável: Jim Rygiel e Alex Funke, O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei


Comentário: "O Retorno do Rei" na mosca, não há como errar. Em 2003 eles ficaram de fora do prêmio pois consideraram que não tinha nada de novo com relação ao primeiro filme. Nessa terceira parte veio a superação. Mas o melhor é que nenhum Matrix está na lista.

Melhor Edição de Som
Se o mundo fosse justo: Richard King, Mestre dos Mares: O Lado Distante do Mundo
Em um mundo provável: Richard King, Mestre dos Mares: O Lado Distante do Mundo


Comentário: "Mestre dos Mares" é o melhor e parece a vitória mais evidente. "Piratas do Caribe" seria uma consolação. "Procurando Nemo" vai ganhar como animação então perde esse.

Melhor Filme de Animação
Se o mundo fosse justo: Procurando Nemo, Andrew Stanton e Lee Unkrich
Em um mundo provável: Procurando Nemo, Andrew Stanton e Lee Unkrich


Comentário: Quem eu falei que ganhava esse? Não vou nem citar os outros...

Melhor Documentário, Curta Metragem e Curta de Animação

Não assisti nenhum.

And the Oscar goes to...


Sábado, Fevereiro 28, 2004

Dizem que todos nós perdemos 21 Gramas no exato momento da nossa morte.
O peso de um saco de moedas
O peso de uma barra de chocolates
O peso de um beija-flor




O espetacular 21 Gramas de Alejandro Iñarritu, começa com Sean Penn sentado numa cama seminu ao lado de Naomi Watts que está deitada com a cabeça virada para o lado da câmera. Aparece então o título do filme e em seguida uma quantidade absurda de cenas desconexas que nos deixam totalmente perdidos. Nos primeiros 20 minutos há muita dificuldade em entender a proposta de Iñárritu (diretor do memorável "Amores Brutos"). Comecei a ficar nervoso com o que estava assistindo, principalmente por não entender quem era a inglesa de cabelos pretos que tanto era focada na tela.

21 Gramas conta a história de um transplante. Sean Penn está à beira da morte e recebe um novo coração. Segue-se uma crise de identidade, que o leva à Naomi Watts (de "Cidade dos Sonhos"), mulher do falecido doador.

A sinopse pode até parecer simples e banal, não é? E seria, caso o diretor fosse um "mero cineasta". Por isso, ele resolve virar na mente do espectador, uma caixa de quebra-cabeças com 500 peças. A gente olha uma parte, olha outra e vai tentando montar e formar uma paisagem. Quem ainda não assistiu pode até achar estranho, mas é assim mesmo que nos sentimos. Tanto que depois dos 20 minutos iniciais, quando descobrimos o que estamos assistindo (e no meu caso quem é a inglesa de cabelos pretos), nos damos conta de que este é O FILME. Há uma quebra de ritmo no meio do filme, não por culpa do diretor, mas pela temática da fita que é pesada, melancólica e triste.

As atuações são fenomenais. Sean Penn mais uma vez dá um banho em cena (esse é o cara do momento e está indicado para o Oscar de melhor ator por "Sobre Meninos e Lobos"). Benicio Del Toro (indicado por "21 Gramas" ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante) tem em mãos o melhor personagem de sua carreira (complexo e interessante, é um cara que busca forças na fé - se é que um dia a teve de verdade em seu coração). Naomi Watts (indicado por "21 Gramas" ao Oscar de Melhor Atriz) depois de "Cidade dos Sonhos" e deste filme não tenho mais dúvidas de que a moça nasceu para ser atriz de filme pornô, mas é muito talentosa. Quem chamou minha atenção foi a coadjuvante Melissa Leo como esposa do personagem de Benicio (ela me conquistou com aquela que talvez venha a ser a melhor cena do filme, veja e comente).

Alejandro Iñarritu fez valer o seu "21 Gramas". Sem contar, que é preciso ter culhões pra fazer em Hollywood uma fita dessas. Palmas pra ele porque o cara merece.


Quarta-feira, Fevereiro 25, 2004
Encerramos hoje a nossa enquete "Qual autor você quer ver em uma montagem teatral com a turma do 2º ano do CCG em 2004, com direção de Abílio Guedes." O resultado não foi surpresa.

Em primeiríssimo lugar, com 20% dos votos ficou Chico Buarque. Sua bibliografia teatral é composta pelos clássicos Roda Viva, Calabar, Gota d'água, Os Saltimbancos e Ópera do Malandro. O escritor e compositor também participou com suas músicas para os espetáculos: Balanço de Orfeu, Morte e vida severina, O patinho preto, Pedro pedreiro, Meu refrão, Os inimigos, O&A, O Homem de La Mancha, Mulheres de Atenas, Murro em ponta de faca, O Rei de Ramos, Geni, Balé Grande circo místico, Dr. Getúlio, O corsário do rei, As quatro meninas, Dança da Meia-lua, Suburbano coração e Cambaio.



A medalha de prata ficou para Dias Gomes. Com 11,11% dos votos, as obras deste versátil escritor mostraram-se bastante populares. Entre seus muitos sucessos, destacam-se: A comédia dos moralistas, Esperidião, Ludovico, Amanhã será outro dia, Pé-de-cabra, João Cambão, O homem que não era seu, Sinhazinha, Zeca Diabo, Eu acuso o céu, Um pobre gênio, Toque de recolher, Doutor Ninguém, Beco sem saída, O existencialismo, A dança das horas, O bom ladrão, Os cinco fugitivos do Juízo Final, O pagador de promessas, A invasão, A revolução dos beatos, O bem-amado, O berço do herói, O santo inquérito, O túnel, Vargas (Dr. Getúlio, sua vida e sua glória), Amor em campo minado (Vamos soltar os demônios), As primícias, Phallus, O rei de Ramos, O santo inquérito, Campeões do mundo, Olho no olho e Meu reino por um cavalo.

Agradeço a todos que votaram e espero que qualquer que seja o texto escolhido pelo nosso grupo, ele consiga alcançar o entusiasmo de quem nos assistir. Vejam o resultado na integra da enquete:

Chico Buarque 20,00%
Dias Gomes 11,11%
Federico Garcia Lorca 6,67%
Gianfrancesco Guarnieri 6,67%
Luis Fernando Verissimo 6,67%
Outros 6,67%
Ariano Suassuna 4,44%
Bertold Brecht 4,44%
Edu Lobo 4,44%
Miguel Falabella 4,44%
Millor Fernandes 4,44%
Nelson Rodrigues 4,44%
Oduvaldo Vianna Filho 4,44%
Gerald Thomas 2,22%
Luiz Carlos Cardoso 2,22%
Plínio Marcos 2,22%
Samuel Beckett 2,22%
William Shakespeare 2,22%
Gil Vicente 0,00%
José Celso Martinez Corrêa 0,00%
Martins Pena 0,00%
Oscar Wilde 0,00%
Tennessee Williams 0,00%


Segunda-feira, Fevereiro 02, 2004

Certos filmes você gosta porque se diverte com eles. Outros são bons porque te fazem pensar. Mas há também aqueles raros e bons filmes que você não gosta. Você ama. E amor, como todos sabem, complica tudo. Complica porque você não explica. Só sente.
Laranja Mecânica para mim é assim: paixão pura. Deleite. Delírio. E todos os outros "D" dos perpétuos.

Eu não sei dizer porque gosto tanto. Pelo menos não de uma maneira 100% racional. É claro que existem fatores técnicos e artísticos inegáveis. Mas a verdade é que tantos outros filmes os têm também e não batem do mesmo jeito. Para você ter uma idéia, eu não acho que o "Laranja" tenha uma ou duas cenas antológicas. Ele é na verdade uma antologia de cenas clássicas enfileiradas. Acaba uma, segue-se outra ainda melhor.

Tudo começa na estupenda cena inicial. Melhor, começa antes, nos curtos letreiros em abusados fundos monocromáticos (cores básicas: azul e vermelho), ao som da envolvente música-título de Walter Carlos. A música continua enquanto o filme começa - e começa logo de cara num close da cara psicótica do Malcolm McDowell (no papel que ele pediu a Deus, e que bem poderia funcionar como uma aposentadoria antecipada, diante dos seus excelentes serviços prestados aos cinéfilos do mundo todo através de um único filme).

Depois de um fantástico travelling pela leiteria, somos apresentados à ultra-violência, com mais um punhado de seqüências irretocáveis, que culminam no estupro ao som de "Singin' in the Rain".

Mas caraca! Como é que alguém pode amar um filme com tamanha violência, quase sempre gratuita e exacerbada? Como é que alguém pode se deliciar com cenas repulsivas e vis? Como é que alguém pode encontrar beleza num espancamento ou num fecha-pau entre gangues rivais? A resposta é uma só: Kubrick. Esse finado maluco sabia como construir cenas belíssimas, delirantes e sublimes, mesmo (ou principalmente) mostrando todo mal que mora no coração dos homens.

E no momento em que você começa a achar totalmente desprezível e odioso o tal de Alex, o cara chega em casa e delira (e nós também) com o bom e velho Ludwig Van. E a estátua com os quatro Cristos (!) começa a dançar, enquanto violentos sonhos povoam a mente do guri, e a nossa. E você se descobre nutrindo uma estranha e mórbida simpatia por aquele anti-herói (ou vilão mesmo).

Segue-se a derrocada do cara. Traição. Prisão. Insultos perpetrados por um policial que sempre me pareceu um cover sério do John Cleese (se é que isso é possível). E finalmente a seqüência atordoante do Tratamento Ludovico. E de repente lá está você, sentindo pena do pobre Alex. E vai sentir ainda mais quando, num cenário deliciosamente, seus pais o renegam. E quando ele é espancado pelos mendigos e, em seguida, por seus ex-drugues. E o ciclo se fecha na casa do velho.

Nas cenas seguintes, o exagero da interpretação do Malcolm se une ao exagero das caretas perpetradas por Mr. Frank Alexander (Patrick Magee), culminando numa frase que me faz tremer toda vez que a ouço/vejo: "Try the wine!" (Tente o vinho).

Seguem-se novas tomadas antológicas (fato realmente corriqueiro neste filme). E não pense que Kubrick perpetraria, para um filme tão surpreendente, um final bundão-hollywoodiano. Não. A divertida trepada na neve, com os aplausos dos espectadores (você é um deles) e a redentora frase final fecham o filme de forma irretocável: "I was cured all right." (Eu estou totalmente curado).

Beijos, Rafa!!

Adendo: se eu fosse falar da trilha sonora esta resenha teria o dobro do tamanho. Fica pr'outra vez.


Domingo, Janeiro 25, 2004

Olá pessoal...

Por muitas vezes me pego observando as pessoas e o mundo a minha volta, procurando manifestações mais explícitas da obra de Deus. Sempre que temos tempo de parar o ritmo que "o dia" nos impõe, descobrimos que a maior virtude da grandiosidade da criação, está na diversidade de mundos que ele criou. São várias formas de ver e viver, cada um de nós tem a sua visão de mundo e com isso as perspectivas se tornam mais amplas. É como se o mundo fosse dividido em 6,3 bilhões de diferentes universos, ou 6,3 bilhões de formas de vive-lo efetivamente.

E esses universos são metamórficos. O choque (nem sempre) ocasional entre as vidas das pessoas, faz com que o mundo introspectivo de cada um influencie e muitas vezes mude o mundo existente no outro. É por isso que jamais saímos de uma relação, da mesma forma como entramos.

Para quem é cristão como eu e acredita no poder do espírito santo, sabe que o homem foi abençoado com sete dons divinos: sabedoria, entendimento, conselho, fortaleza, ciência, piedade e temor de Deus. Este último não significa medo de Deus, mas um amor tão grande que queima o coração de respeito por ele. Não é um pavor pela justiça divina, mas o receio de ofender ou de desagrada-lo. Por isso Jesus teve sempre o cuidado de fazer em tudo a vontade de seu Pai, como Isaías havia profetizado: Sobre Ele repousará o Espírito do Senhor, Espírito de sabedoria e de entendimento. Espírito de prudência e de coragem, Espírito de ciência e de temor do Senhor (Is 11,2).

Você deve estar se perguntando: Por que o Rafael está com esse papo todo?

O maior de todos os dons que nós possuímos é o dom do amor. Do amor a Deus, do amor ao próximo, aos nossos parentes, amigos e até mesmo do amor aos nossos desafetos. E agora, fui abençoado com mais uma forma de amar. Fui abençoado por "Ele" ao ser escolhido para ser o pai da Maria Eduarda, minha primeira filha.



É como se o "meu mundo" tivesse se transformado por completo. Ao contrário do que algumas pessoas podem pensar, a sensação não é de sufoco, medo ou desespero. Na verdade o mundo a sua volta fica mais colorido. As pessoas ficam mais bonitas e os erros mais compreensíveis. Os objetivos parecem mais fáceis, porém se multiplicaram (berço, roupa, remédio, fralda, fralda, fralda...). É isso pessoal, meu mundo se chocou com o de Maria Eduarda. Espero apenas conseguir fazer o mundo dela, mais colorido ainda, do que o meu.

Para encerrar, existe um preconizado e velho provérbio que afirma algo como: ¿Para sermos efetivamente considerados como plenos cumpridores de nossos deveres de homens, temos que dar um filho à pátria, plantar uma árvore e escrever um livro". É melhor eu ir providenciando as sementes e quem sabe, no lugar de um livro, uma peça.

Beijo a todos.
Rafael Santin


Quarta-feira, Janeiro 14, 2004

TCHÔNES AWARDS 2004

Veja os melhores no mundo do cinema em 2004,
eleitos pelos leitores de Filmes, Pizzas e um Par de Olhos Azuis.



Melhor Filme Estrangeiro

O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei encerra uma saga. Ou várias. A saga de Frodo Bolseiro e seu melhor amigo - o melhor amigo que alguém poderia ter - Samwise Gangee para destruir uma arma do mal. A saga de Aragorn, o herdeiro de um trono tomado numa batalha sangrenta, para honrar o trono do pai. A saga de hobbits, magos, elfos, anões e homens com uma missão, com um propósito. Heróis cujos feitos muitas vezes passaram despercebidos porque eram apenas pequenas - ainda que fundamentais - partes de um objetivo maior. Sob esse prisma, toda a trilogia é bem velha, assim como são velhos o conceito de dignidade, de honra, de respeito e - o mais simples de todos - o de ser bom.

Tempos modernos. Foram eles que destruíram a beleza, a pureza. Que nos fizeram acreditar que heróis que matam são mais humanos ou mais críveis. Que falhas no caráter não somente devem ser aceitas e perdoadas, mas são provas de que sagacidade e perspicácia e capacidade de observação da realidade. Na minha época, as crianças voavam com seres alados, lutavam em ligas de justiça, combatiam as diferenças e aprendiam, brincando, o que deveria ser importante de verdade.

Indicados na categoria: 8 Mile - Rua das Ilusões; A Última Noite; A Viagem de Chihiro; Adaptação; Adeus, Lênin; As Horas; Chicago; Embriagado de Amor; Femme Fatale; Gangues de Nova York; Identidade; Irreversível; Longe do Paraiso; O Pianista; O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei; Prenda-me se for Capaz; Procurando Nemo; Secretária; Tiros em Columbine; X-Men 2



Melhor Filme Nacional

Já faz um tempo que o nordestino finalmente ganhou espaço na TV. Ele é um ser geralmente divertido, com sotaque engraçado e que se equilibra entre a esperteza e inocência. Às vezes ganha interpretações encantadoras, às vezes abraça a caricatura, mas de uma maneira geral não passa de um rascunho da realidade. O modelo do nordestino idealizado pela TV chegou ao cinema com mais força na década de 90 e se cristaliza em Lisbela e o Prisioneiro, primeiro material que Guel Arraes dirige exclusivamente para a tela grande. Arraes, que ao lado de Jorge Furtado criou uma linguagem própria dentro da televisão brasileira, é um homem de grande capacidade para envolver o espectador. Seus truques narrativos, sua direção de elenco costumam criar histórias envolventes e personagens deliciosos.

Selton Mello e Débora Falabella estão completamente à vontade nos papéis. Os coadjuvantes estão corretos. Marco Nanini reprisa bem, mas sem necessidade o papel de matador, Tadeu Mello parece que só sabe fazer o mesmo personagem (o mais caricato e mais executável do filme) e Bruno Garcia emplaca um sotaque carioquês engraçadinho. A surpresa é Virgínia Cavendish, que consegue equilibrar sua interpretação num misto perfeito de melodrama e comédia.

Indicados na categoria: Amarelo Manga; Carandiru; Lisbela e o Prisioneiro; O Homem do Ano; O Homem que Copiava



Melhor Diretor

Uma coisa é descrever terras distantes, seres mágicos, batalhas místicas, e deixar as imaginações férteis trabalhando. Outra é materializar todo um universo, com códigos, sistemas e personagens cheios de desdobramentos e possibilidades, respeitando a obra original e construindo verossimilhança, sem perder a magia. A missão de Peter Jackson era difícil e de sucesso pouco provável. Sucesso artístico, entenda-se. Mas o cineasta cumpriu seu papel em todos os prismas, do épico de batalhas grandiosas, da honra de cumprir uma missão à cumplicidade entre dois amigos.

Indicados na categoria: Brian de Palma (Femme Fatale); Guel Araes (Lisbela e o Prisioneiro); Jorge Furtado (O Homem que Copiava); Martin Scorsese (Gangues de Nova York); Michael Moore (Tiros em Columbine); Peter Jackson (O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei); Roman Polanski (O Pianista); Steven Spielberg (Prenda-me se for Capaz)



Melhor Ator & Melhor Atriz

Nascido e criado em Nova York, Adrien Brody passou a adolescência entre latinos e negros do Brooklyn. Polanski começou as filmagens pelo final do roteiro, quando o pianista está à beira da morte por causa da fome e de doenças, o ator teve de emagrecer 15 quilos. "Fiz a dieta da zona de guerra. Nada de gordura, carboidrato, açúcar, frutas ou grãos. Tente fazer isso por uma semana e imagine que eu fiz por oito", disse ele numa entrevista.

Para resistir às tentações gastronômicas e "encontrar o sofrimento", Brody impôs a si mesmo reclusão total. Vendeu o carro e ficou enfurnado num quarto de hotel, onde estudava quatro horas de piano por dia, aprendia polonês e decorava o script. No primeiro dia de filmagem, se sentia tão fraco que disse ao diretor que não teria energia para pular um muro como previa a cena que seria rodada. "Ele me disse: ´Para quê você precisa de energia? Faça o que eu mando´", contou Brody. "Comecei a chorar e percebi que seria uma difícil jornada."

Brody se entregou de tal maneira ao personagem que seis meses depois do fim das filmagens de O Pianista continuava deprimido. Resultado: perdeu a namorada que tinha há anos e se tornou um chorão. "Bastava um copo de vinho para me fazer chorar."

Indicados na categoria: Adrien Brody (O Pianista); Daniel Day-Lewis (Gangues de Nova York); Eminem (8 Mile - Rua das Ilusões); Lázaro Ramos (O Homem que Copiava); Nicolas Cage (Adaptação); Selton Mello (Lisbela e o Prisioneiro);

Nicole Kidman parece que resolveu levar a profissão a sério. É complicado dizer que alguém está perfeito num personagem que realmente existiu na vida real, principalmente se essa pessoa viveu sem ter qualquer registro audiovisual seu, mas pra mim, Virginia Woolf foi exatamente como aquela que estava na tela.

Porém nada disso seria possível se o restante da equipe de As Horas não tivesse o mesmo empenho. Baseado em um livro homônimo de Michael Cunningham, que recebeu o prêmio Pulitzer, ¿As Horas¿ é marcado pela sensibilidade de seu diretor, Stephen Daldry (Billy Elliot), ao transmitir o best-seller para a telona. Um super elenco para o projeto reuniu Meryl Streep, Nicole Kidman e Julianne Moore representando no auge de suas formas. Isso é o que eu chamo de "AS HORAS certas nos lugares certos".

Indicados na categoria: Catherine Zeta-Jones (Chicago); Debora Falabella (Lisbela e o Prisioneiro); Julianne Moore (Longe do Paraíso); Meryl Streep (As Horas); Mônica Bellucci (Irreversível); Nicole Kidman (As Horas)



Melhor Ator Coadjuvante & Melhor Atriz Coadjuvante

O que podemos esperar e exigir desta categoria? Eu diria: O MÁXIMO!!

Atores coadjuvantes é uma das minhas categorias prediletas na arte da interpretação. Isso porque pelo fato de terem menos tempo em cena podem condensar mais determinadas características e situações, que os personagens principais precisam estender por todo o roteiro (isso no teatro e no cinema). Com isso, a identificação torna-se imediata com a platéia e podemos saborear magníficas pérolas artísticas.

Sean Astin alcançou fama nos anos 80 com o clássico "Os Gôonies" e fez de seu Sam de "O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei" uma explosão de sentimentos, quando por conteve seus medos e inseguranças até o momento de criar coragem para enfrenta-los. O resultado é uma das cenas mais emocionantes de um filme repleto de efeitos especiais, mas que nessa sequência, a única coisa que tinha de especial era o talento do eterno gôonie, ao melhor estilo Stanislavski.

Indicados na categoria: Andy Serkis (O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei); Christopher Walken (Prenda-me Se For Capaz); Dannis Quaid (Longe do Paraiso); Pedro Cardoso (O Homem que Copiava); Sean Astin (O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei); Tadeu Mello (Lisbela e o Prisioneiro)

Devo confessar que Ellen De Generes me surpreendeu ao ganhar pela sua encantadora Dory em "Procurando Nemo". Não pelo talento, mas sim pela aceitação dos internautas, que reconheceram está que é uma das mais difíceis formas de interpretação, que é a dublagem para desenhos animados, mas que a cada ano, vem conquistando seu espaço de maneira mais do que merecida.

Ellen talvez nunca venha a estrelar com sucesso um filme como protagonista, mas como coadjuvante, consegue trazer o estilo de humor afiado (mas ainda bastante "família") que utiliza em seus seriados de televisão.

Indicados na categoria: Dira Paes (Amarelo Manga); Ellen De Generes (Procurando Nemo); Julianne Moore (As Horas); Meryl Streep (Adaptação); Virginia Cavendish (Lisbela e o Prisioneiro)

Quero agradecer aos 176 votos de internautas que colaboraram para a escolha do Tchônes Awards 2004. Para mim essa eleição foi uma grande realização pessoal, pois juntou parte dos meus maiores prazeres na vida: cinema, listas e amigos.

Obrigado de coração a todos,
Rafael Santin


Domingo, Janeiro 04, 2004



Oi pessoal...

No meio do último semestre de 2003, o cineasta Marcos Craveiro convidou algumas pessoas do Conservatório Carlos Gomes para participarem da produção de seu mais novo curta-metragem: Dois Atos.

Após alguns meses de pré-produção do curta (que conta a história do início da carreira de jovens atores em um formato meio documental) e algumas gravações em outras cidades, finalmente começamos a filmar as nossas cenas. Além ser uma ótima oportunidade para se conhecer uma nova linguagem para interpretação, foi uma boa maneira de rever algumas pessoas do Conservatório, já que estamos de férias.

Marcos Craveiro além de cineasta , é publicitário e já realizou entre outros os filmes Crepúsculo (1976) e Close-up Regina Duarte (1979), ambos premiados em festivais nacionais, e João da Mata - um documento (1983), premiado em Los Angeles.

A seguir, vejam algumas fotos do making of dessa produção, que reúne mais uma vez o nosso grupo que realizou a adaptação do "Velório a Brasileira" (Danielly Borges, Gisele Walters, Rafael Santin {eu}, Sidney Laranjeira, Thamy Quintanilha e Tiago Gonçalves), mais Cassandra Oliveira e Evandro Cunha.



Em breve, mais informações sobre a produção de Dois Atos.

Abraços,
Rafa!!!


Entrevista: Augusto Boal


O humanismo anti-opressor de Boal

"O ser torna-se humano quando descobre o Teatro!"

Augusto Boal, 73 anos, criou o Teatro do Oprimido, e o leva às ruas, à mais de 37 prisões e trabalhadores sem-terra. Não bastasse, é conhecido e admirado em mais de 70 países. Nesta entrevista, Boal fala sobre teatro, consumo e política. Tudo sob um único ponto de vista: o de um brasileiro.

Você concorda que o seu teatro está cada vez mais reconhecido no exterior e cada vez menos conhecido no Brasil?
Não. Ele é cada vez mais reconhecido no exterior quanto no Brasil. No Brasil atualmente nós estamos trabalhando, começamos no ano passado em 37 prisões do estado de São Paulo. Esse ano nós vamos começar em seis estados diferentes e não apenas em São Paulo. Fora isso nós trabalhamos com o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra no Brasil inteiro também. No Rio de Janeiro nós estamos atualmente com seis grupos que fazem o que nós chamamos de Teatro Legislativo. Em Santo André e São Paulo nós trabalhamos no Orçamento Participativo. A intensidade de trabalhos no Brasil é cada vez maior, cada vez temos mais âmbitos nos quais estamos trabalhando. No mundo inteiro o Teatro do Oprimido também está se desenvolvendo em 70 países, com mais de 30 anos. Nós acreditamos que isso se deve ao fato que o Teatro do Oprimido não é um catecismo, um depositário de recomendações que diz se a pessoa deve se comportar dessa maneira ou da outra, mas, ele é ao contrário, um sistema no qual as pessoas podem transformar em teatro as suas próprias vidas e podem, no presente, analisar o passado pra inventar o futuro. Isso, evidentemente, me agrada muitíssimo e agrada a quem faz o Teatro do Oprimido em qualquer parte.

O Teatro do Oprimido é um instrumento de compreensão da realidade...
Exatamente. Como o teatro em geral é uma transcrição da realidade, não é a reprodução, é uma representação do real. Isso facilita com que as pessoas como expec-atores e não como expectadores, entrando em cena, se reconheçam, vejam quais são os problemas que eles realmente tem, mas de uma forma global, porque esta é uma linguagem geral, uma linguagem total. O teatro usa, contém, todas as linguagens - o som, a voz, a cor, o traço, as idéias, a poesia, a música, o movimento. Então como é uma linguagem global é possível entender muito mais do que às vezes vendo só uma realidade ou participando dela sem vê-la. O Teatro do Oprimido também tem a opção de não fazer uma crítica direta, como a dramaturgia brasileira ou outras fazem, porque nele o que interessa mais é a questão da ação, da participação do público. O que a gente quer é que o expectador se transforme, dentro de cena, em protagonista de sua própria vida. A gente acha que o Brasil, não só o Brasil, mas em muitos países, o povo mesmo é relegado a uma posição secundária, subalterna, a uma posição de não apenas consumir o produto teatral, mas pior, apenas consumir as decisões políticas. De obedecer às decisões políticas sem participar delas. O que nós queremos é que cada vez mais, os povos, tenham acesso ao conhecimento e o teatro é uma dessas formas de conhecimento pra que eles possam se transformar em protagonistas da ação. E não apenas ser o expectador da ação dos políticos, não apenas o expectador da ação dos milionários, dos poderosos, mas que ele seja também parte desta sociedade, que ele flua no caminho desta sociedade.

Pegando um gancho para o Teatro Legislativo, como acontece isso na prática?
Normalmente no Teatro Legislativo, a gente vai numa comunidade, ou num grupo temático - nós temos um grupo que é de empregadas domésticas, e elas não moram na mesma comunidade mas tem o mesmo tema, ou seja, um grupo temático ou um grupo de comunidade, e a gente não impõe nenhuma idéia, não impõe nenhum tema, nada. A gente apenas ajuda essas pessoas através de exercícios - no meu livro "Jogos para atores e não-atores", eu tenho uma coleção de quase 500 exercícios, nós fazemos exercícios desse livro, e depois desses exercícios a gente chega às improvisações. Das improvisações, sempre feitas pelo grupo e não por nós, se extrai os diálogos, as cenas, e mais tarde a cenografia, trabalha-se a dramaturgia, são elas próprias que fazem isso. Uma vez feitos estes espetáculos, criados assim, são apresentados pra sua própria comunidade e depois os expectadores entram em cena e fazem questões. As questões apresentadas são redigidas e um grupo seleciona e trabalha em cima dessas sugestões, depois o grupo apresenta não apenas para a sua comunidade, mas em diálogos com outras comunidades e apresenta também na rua. Feito isso, as sugestões todas que foram dadas, são transformadas em projetos de lei. Quando eu era vereador no Rio de Janeiro eu mesmo apresentava os projetos de lei. Agora que eu não sou mais vereador, nós temos colegas, companheiros, que apresentam. E temos a primeira lei, quando eu estava lá tivemos treze leis que foram aprovadas e promulgadas. Agora que eu saí, a primeira lei foi promulgada, através do Chico Alencar.

Que lei?
É uma lei que considera como sendo tempo de trabalho as aulas grátis que são dadas para comunidades pobres. Tem outras como a que é contra
a discriminação homossexual. Tem também leis contra a discriminação racial. Tem leis a favor das testemunhas de crimes(base da lei federal de proteção as testemunhas), uma coleção muito grande de leis, são 13. Algumas são mais episódicas, como construção de creches, de escolas públicas, e outras são bem mais gerais.
Isto é da maior importância porque saiu da população mesmo


Como se processam os desejos do ser humano dentro da sociedade de consumo?
Como você sabe, a televisão e os meios de comunicação em geral estão a serviço dos mercadores. A gente fala mercado, mas o mercado é apenas um local, é apenas um método. Os mercadores invadiram tudo. Você não pode sair na rua sem que você veja por toda a parte uma poluição visual imensa, dizendo o que você deve comprar, o que você deve beber, o que você deve comer, como é que você deve se vestir, são todas imagens imperativas, que dizem, faça isso, faça aquilo. Você vê televisão, não pode ver um programa, sem que ele seja cortado a cada 5 minutos com outros 5 minutos de propaganda. Então chega um momento que se processa dentro do expectador uma prótese do desejo, o desejo dele é arrancado e é medido dentro do mercado. O que eu vejo é que as pessoas brasileiras, e na maior parte do mundo, vivem querendo comprar o último modelo de cada coisa, jogando fora coisas que são absolutamente úteis e funcionam para substituir por outras que estão na moda.

E como que se dá uma luta contra isso? Uma luta individual?
Acho que individual não tem jeito, acho que tem que ser coletiva. A gente é indivíduo, mas um indivíduo sozinho não é nada. Não adianta nada eu falar o que estou falando para você se ficar na frente da minha janela e falar para o vento. Falar para você é sair no jornal, então acho que não será mais individual. Já sou eu comentando o que penso com as pessoas que vão ler isso agora. Então já se socializa um pensamento. As pessoas podem estar de acordo, eu espero que todas estejam, mas sempre tem aqueles que irão dizer que não pensam desse jeito. Então diga o que pensa. O importante é que as pessoas digam aquilo que pensam e não basta dizer não, é preciso dizer o que é que estamos a favor. Tem que dizer sim também. Sim a que continue o mundo como está? Sim a este mundo mais desmoralizado como a gente está vendo? As pessoas sempre dizem: "mas e o exemplo dos Estados Unidos?". O exemplo dos Estados Unidos é o pior do mundo. É um país que não é uma democracia e finge que é, lá você sabe que as pessoas votam - nem votam, porque mais da metade da população que poderia votar não vota - então tanto faz um como o outro, e as pessoas falam: "mas o comércio lá, a indústria lá, são exemplos". São exemplos do quê? De corrupção? Você vê companhias lá, baseadas na mentira e corrupção, própria do capitalismo que é glutão e quer comer cada vez mais . E o que temos que fazer não é voltar a experiências fracassadas do passado, mas inventar o futuro. Esse é o projeto do Teatro do Oprimido.

Inventar o futuro significa desenvolver a identidade da pessoa?
Da pessoa e das pessoas e dos grupos sociais, né? É que atualmente o mundo está tripartido. Tem a humanidade que é dona, controladora do mercado. Tem a segunda humanidade que é a dos consumidores do mercado. E tem a terceira humanidade que é quase toda a África, quase metade do Brasil, 20% dos países como os Estados Unidos, de miseráveis, quer dizer, que não estão inseridos no mercado, humanidade descartável. O que a gente tem que fazer é lutar pra que exista uma só humanidade e não as três que estão existindo hoje.

Saiu recentemente (edição de julho de 2002)na Veja um artigo do Diogo Mainardi fazendo uma série de críticas ao Teatro do Oprimido...
Não, ele não fez críticas, ele deu elogios imensos. Ele falou, por exemplo, que em Ribeirão Preto 300 crianças estiveram fazendo teatro contra a dengue. Eu acho isso extraordinário. Falou que a Marta Suplicy botou 8 mil pessoas discutindo o futuro de São Paulo, como é que São Paulo poderia ser uma cidade mais bonita, mais feliz. Isso eu acho um elogio fundamental. Falou que em Santo André o governo pergunta a população o que o deve ser feito com o orçamento. Elogio maior do que esse não existe. Então deu todos esses elogios e depois deu o elogio maior a mim, de dizer que eu sou responsável por isso. Eu acho que não, não posso aceitar esse elogio, não sou eu sozinho. São essas 8 mil pessoas em São Paulo, essas 300 crianças, o artigo dele é extremamente elogioso. Mas como ele é uma pessoa raivosa, depois de ter confessado a importância do Teatro do Oprimido, ele tinha que dizer alguma besteira. Fala que todo teatro é uma porcaria. Do Teatro do Oprimido até que ele só fala bem porque pelos exemplos que ele deu e pelos quais ele me considera responsável, são exemplos maravilhosos. Então quem lê isso fica encantado, fala "mas Boal, você conseguiu isso mesmo, que coisa linda". Agora depois, como ele fez esse elogio extraordinário ao Teatro do Oprimido, ele se achou na obrigação de falar mal de todo o teatro. Então ele fala que as igrejas evangélicas devem ocupar os teatros porque os teatros são inúteis. Ele acabou de mostrar a utilidade dos teatros. Então ele é de uma burrice espantosa, isso faz com que ele não saiba o que está falando. É uma pessoa que você não pode dar crédito, nem no elogio, nem na crítica, porque ele não sabe o que fala. Na semana seguinte, ele escreveu que veio ao Rio de Janeiro fazer uma reportagem, mas que todos os compositores importantes já tinham morrido. É de uma burrice, de uma surdez espantosa, então ele vive dando um espetáculo triste dele mesmo.

Como é que você vê a dramaturgia brasileira atual?
Ninguém vê. Porque a dramaturgia brasileira, se você considerar que o Brasil é imenso, as pessoas às vezes conhecem aquilo que está sendo feito em teatro, mas conhecem o que está sendo feito no Rio e em São Paulo. Ninguém sabe o que se faz no Recife, no Amazonas, no Mato Grosso, ninguém sabe o que faz. A gente sabe que tem muita coisa boa e como toda a dramaturgia tem coisas boas e coisas péssimas. A resposta seria a mesma se você me perguntasse "e a França, como está a dramaturgia francesa?". A pergunta que se fez serve pra Inglaterra, França, pros Estados Unidos e a resposta também serve.

Quem são os oprimidos hoje no Brasil?
Os negros, porque não podem dizer que "black is beautiful", as mulheres, porque estão relegadas a um papel secundário, você vê que nos ministérios não tem nenhuma mulher, e raramente aparece uma mulher no ministério, então em posição de poder raramente aparecem mulheres. São os camponeses que no Brasil que tem 8 milhões e meio de kms quadrados de extensão, e a maior parte desta terra está desocupada e não se pode ocupar, são os desempregados que nem sequer emprego tem, são os empregados que tem emprego mas são explorados, são os estudantes que não tem uma educação, são os doentes que não tem hospital com remédios... Quer dizer, falar hoje, no Brasil, de opressão, é dizer "quem não é oprimido? Quem não é oprimido são aqueles extremamente poderosos que estão se dando muito bem. Hoje saiu no jornal, o Brasil é o septuagésimo terceiro país em qualidade de vida, quer dizer, 72 países estão lá na frente, entre 170. Quer dizer, é uma miséria que um país tão rico como esse, tão cheio de possibilidades, tenha sido levado pelos últimos governos e pelos governos que temos tido a essa situação.

Para o oprimido falar de si mesmo, é mais fácil ele falar no teatro do que na vida real?
O oprimido fala da situação dele pelo teatro muito mais fácil do que pela palavra só. Aconteceu uma coisa muito linda em nosso grupo de empregadas domésticas que uma mulher, fez um espetáculo e começou a chorar. E aí nós perguntamos por quê ela estava chorando e ela disse que depois que ela fez teatro do oprimido, depois que entrou em cena, depois que ela mostrou o que pensava e o que sentia, ela se olhou no espelho e pela primeira vez ela viu uma mulher no espelho. Então nós perguntamos o que ela via antes e ela respondeu que "antes via uma empregada doméstica e agora eu sei quem eu sou". Então essa mulher que se viu no espelho porque antes se viu no teatro, dizendo o que pensava e o que sentia, é o que acontece com todos os oprimidos que usam o teatro do oprimido como forma de liberação.

Como é aquele episódio do episódio do qual saiu um dos nomes de seus livros, o "Aqui Ninguém é Burro"?
É que na Câmara do Rio de Janeiro eu disse pro políticos que tinham votado a favor de uma isenção monstruosa de impostos que eram todos ladrões e eram burros e um dos vereadores foi se defender e disse que eu sabia muito bem que ali ninguém era burro. Quer dizer, ladrões eles aceitavam que fossem. Esse livro tem vendido bastante porque conta o que é por dentro a Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro e por extensão um bom número de câmaras de vereadores do Brasil inteiro.

Como é participar do despertar de uma consciência política para você, que já foi político e participa do Fórum Mundial Social.
Eu nunca fui político no sentido de querer seguir uma carreira política. Agora, participar de fóruns políticos eu sempre participei, porque eu acho um absurdo que uma pessoa não participe. Eu acho que uma pessoa que vive no mundo já participa de uma vida política. Se ela diz "eu não quero participar da política", esta é uma atitude política. E essa atitude do desinteresse, do "deixa isso pra lá", é uma atitude política que a gente deve combater. Dizer eu não participo é uma forma de participar. É uma forma que você está vendo uma luta entre duas forças desiguais e você não toma partido, você está a favor do forte. É isso o que as pessoas às vezes fazem sem se dar conta.


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